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Quem deve participar da Ceia?

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Apesar das diferenças sobre alguns aspectos da ceia, não vamos tratar aqui a transubstanciação ou a consubstanciação ou até mesmo se Jesus celebrou a pascoa ou instituiu a ceia com seus discípulos, vamos deixar isso para os teólogos mais experientes ou com mais conteúdo do que nós. Vamos partir do entendimento de conceituar a ceia, tentando dar uma orientação prática, entendendo qual a sua relação com o Batismo o uso de seus elementos e quem realmente pode participar deste memorial.


Quem Merece Participar da Ceia?

Rodrigo Moraes e Tiago Amorim

FATEEB - Faculdade Teológico Escola da Bíblia – Teologia e Missão


Resumo

Apesar das diferenças sobre alguns aspectos da ceia, não vamos tratar aqui a transubstanciação ou a consubstanciação ou até mesmo se Jesus celebrou a pascoa ou instituiu a ceia com seus discípulos, vamos deixar isso para os teólogos mais experientes ou com mais conteúdo do que nós. Vamos partir do entendimento de conceituar a ceia, tentando dar uma orientação prática, entendendo qual a sua relação com o Batismo o uso de seus elementos e quem realmente pode participar deste memorial.


Palavra-chave: Ceia, Batismo, Pão, Vinho.


Introdução

Entendemos que hoje em pleno século XXI, nós evangélicos temos um grande misticismo sobre a ceia, nos perdemos com relação ao seu conceito e o uso de seus elementos. As palavras são simples e fáceis de serem compreendidas, é apenas o nosso ritualismo que as torna difíceis. O Senhor disse: “Fazei isto em memória de Mim”. É esse o seu aspecto distinto, uma lembrança. Não é algo existente no momento presente, celebramos o que está no passado, e que nunca mais poderá ocorrer novamente, ou seja, demonstra simbolicamente tudo que a morte de Jesus Cristo significa para todos nós.


Qual a relação da Ceia com o Batismo?

Antes de começar, quero adiantar que não há nenhuma base bíblica contextualizada para que os participantes da ceia sejam batizados.

Muitos protestantes argumentam com base no significado do batismo e da ceia que, normalmente, “somente os que já foram batizados” devem participar da ceia, alegam que o batismo é um símbolo do inicio da vida cristã.

Segundo Skarsaune, em seu livro “À Sombra do Templo” no ano 100 d.C. , somente depois de serem batizados os cristãos participavam da primeira ceia. Segundo Bultmann na comunidade primitiva nenhuma pessoa não batizada poderia participar da celebração da ceia. Berkhof diz que é necessário estabelecer mais limites.

Enfim, vemos que na história e até mesmo no inicio da comunidade cristã eles relacionavam a ceia com o batismo por uma norma anti-bíblica, secularizando ainda mais o cristianismo.

Estabelecer limites para a celebração da morte e ressurreição de Cristo é tornar o cristianismo elitizado e acessível apenas para um grupo, onde o requisito para participar não é interior (transformação), mas exterior (batismo), não trata da alma em suas intenções, mas do simples cumprimento de um ritual para iniciar o novo convertido a um grupo.


A Exclusão de Pessoas da Ceia

“Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim, coma do pão, e beba do cálice; pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si”. (1Co. 11:27-29).

A palavra Indignamente consiste em desprezar a mútua comunhão que Cristo pelo seu sacrifício expiatório une a Igreja, isto é, o Seu Corpo, a igreja de coríntios estava numa reunião que deveria ter o propósito de celebrar a unidade entre eles, no entanto, usavam daquele momento para desprezar uns aos outros, é como se Paulo dissesse “tal conduta é indigna”, que conduta? A desunião. Deve-se aqui excluir também toda ideia de mérito pessoal, ou alguém que se faz “digno”, por isso ele também diz “...examine-se...”, ou seja, veja se “desprezas os outros”, para que não comas “indignamente”.

O exame pessoal é o remédio contra a indignidade, ou seja, não era para julgarem uns aos outros, por isso quando ele diz em “...discernir o corpo...”, ele está se referindo à comunhão da Igreja e não para o pão da ceia, porque cada um tomava antecipadamente a sua própria ceia, era uma participação entendendo a comunhão, por isso ele diz “...e assim, coma do pão, e beba do cálice...”, ele não diz para não comer pelo contrário “coma”, se nos empenharmos com todas as nossas forças ao analisarmos a nós mesmos, acabaremos sendo mais indignos de comer do pão ou beber do cálice.

Ficamos com algumas perguntas:

- Há alguma dignidade em nós? Não!

- Será que alguém tem certeza da sua dignidade? Não!

- Como posso afirmar biblicamente que sou digno? Não dá!


União só é possível por Graça!

Dizer que você tem que se examinar, e se não se achar digno não coma para não ser condenado têm atormentado os pobres de consciência. Em seu contexto não tem a ver com o seu direito a participar ou não, se esta ali e esta unido com o corpo de Cristo, porque não comer?

Portanto, o problema em Corinto não era a não compreensão do que o pão e o cálice representavam, eles tinham a certeza disso, o problema era antes, eles estavam agindo de maneira egoísta uns para com os outros, provocando a desunião, por isso não estavam discernindo a “eles” como um corpo, indicando que eles deveriam dar atenção a todos os seus relacionamentos no corpo de Cristo.

Em fim, se há méritos não há graça, se não há graça não há união, porque a união como corpo proposto por Jesus só pode acontecer através da graça, somente por graça podemos aceitar o outro como ele é, e não como ele deveria ser, e assim vivemos a verdadeira união proposta por Cristo.


Jesus excluiu alguém da ceia?

Marcos Cap. 14 v.23 “...tendo dado graças, deu aos seus discípulos...”

Mateus Cap. 26 v. 27 “...tendo dado graças, o deu aos discípulos...”

Antes de morrer Jesus serviu a ceia a todos os discípulos, incluindo Judas que o traiu, Pedro que o negou e a Tomé que duvidou.

Jesus sabendo o que haveria de acontecer, poderia ter dito: Judas você não vai participar porque é um traidor e não merece participar desta aliança. E você Pedro irá me negar três vezes, você também não merece participar desta aliança. Tomé, você nem acredita em mim, também não merece participar. Será que é isso mesmo que está escrito? Claro que não! Mas Jesus poderia ter feito e não o fez. No seu lugar era o que faríamos.

Então porque fazemos isso hoje? Será que temos mais autoridade do que o Cristo de excluir pessoas da ceia?

Então ficaria a pergunta:


- Quem não pode participar?

Resposta: Aquele que se achar digno!

Todas as vezes em que nos autoanalisamos para encontrar em nosso coração caído alguma dignidade para participar da ceia estamos cometendo um grande equívoco, não há dignidade em nós!

Diante da igreja se monta uma mesa que representa a ação de Deus por sua graça, a saber, a morte de Jesus o Cristo de Deus. Não merecíamos e jamais mereceremos o grande feito redentor de Deus, que ao amar o mundo de tal maneira se entregou por ele (Jo. 3:16). Então se não merecemos a morte de Jesus na cruz por nós, porque para participar da ceia é necessário ter algum mérito?

Imagino que Paulo, o Apóstolo, ao dizer: “Examine-se pois o homem a si mesmo” nos conduziu para uma análise introspectiva, para entendermos a luz do Evangelho de Jesus que nada somos, e tudo o que vivemos de Deus, vivemos exclusivamente por Sua graça.


Crianças na Participação da Ceia

Se as crianças tinham a permissão para comer a pascoa nos tempos do Antigo Testamento, porque não podem participar da ceia?

Alguns alegam a exclusão de crianças por não saberem distinguir apropriadamente entre os elementos utilizados na ceia, alegam que não conseguem discernir o corpo ou não tem a capacidade de se examinar. Como já vimos que o conceito de discernir e examinar em seu contexto tinha a ver com a igreja de corinto em especial.

Os únicos que de fato “mereceriam” participar da ceia seriam as crianças, que alcançaram o coração de Jesus por sua pureza (Lc. 18:16).


Quais os Elementos para Ceia?

No Antigo Testamento, ensinava que o povo oferecia um cordeiro pascal para remissão de pecados, e que o derramamento de sangue era necessário, ou seja, um significado simbólico apontando para o grande sacrifício futuro que seria apresentado na plenitude do tempo para tirar o pecado do mundo. Como Jesus foi este cordeiro, Ele mesmo faz uma simbologia do ato mostrando o pão como símbolo do seu corpo, e o vinho como símbolo do seu sangue, vemos então a troca do cordeiro pelo pão e do sangue do cordeiro pelo vinho.


Para ilustrar como foi isso veja:


A pergunta que fica é:

Porque fazemos tanta questão nos elementos sendo que eles foram alterados durante o tempo?

Certo dia num vilarejo muito pobre, após um instante de louvor e quebrantamento, decidimos fazer menção da morte e ressurreição de Cristo através da ceia, como Ele mesmo ensinou. Não havia padarias ou mercados para comprarmos pão e suco de uva, mas os moradores daquela casa plantavam mandioca em uma parte do terreno. Escolhemos algumas mandiocas e separamos em copos um pouco de água, e naquele instante fizemos memória de Cristo com mandiocas e água.

Então nos lembramos da frase de Hogde “O modo é nada...A ideia é tudo! (Hodge, 2001)

Qual é o lugar apropriado? E quem deve ministrar?

A ceia do Senhor acontece na comunhão da igreja, agora pense conosco, “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. (Mateus 18:20). Quem pode controlar esta igreja, que a todo tempo e a todo o momento se reúne? Quem pode determinar o lugar de encontro desta igreja, que se reúne em qualquer lugar? Quem pode limitar o seu encontro? Determinar um lugar apropriado à ceia é limitar o encontro desta igreja que se reúne em qualquer lugar, também determinar quem oficializa a ceia é desconsiderar o Novo Testamento que diz que “não há ninguém designado a oficializar coisas que todos os crentes não possam”, sejamos todos nós uma nação sacerdotal por Jesus Cristo. Sendo todos discípulos de Jesus, o que impede de um discípulo servir a outro discípulo a comunhão da ceia?

Portanto, sem rodeios, queremos dizer aqui que não há biblicamente um lugar específico da celebração da ceia, e também não há um dia específico, ou seja, se você se reuniu na sua casa, no jardim, no quintal ou em qualquer outro lugar, ninguém poderá te proibir de celebrar a ceia, pois a Bíblia não o proíbe.


Conclusão

Observar a ceia é lembrar a si próprio e ao mundo do fato de Cristo ter morrido. O que os Pais da igreja fizeram só foi colocar mais obstáculos e exigências neste sacramento, impossibilitando assim mais as pessoas de participarem, colocando a participação da ceia acima até mesmo da graça.

Entenda que qualquer ritual tanto no Antigo Testamento como no novo Testamento, aponta para algo, o problema é que não olhamos para o que ele aponta e sim como esta sendo feito, e até mesmo onde esta sendo feito, queremos deixar claro que o ritual não é um fim em si mesmo, ele nos dá um sentido, e o sentido da ceia é a comunhão dos santos, o repartir do pão e a lembrança da morte de Jesus Cristo até que ele venha.

Bibliografia

BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução: Odayr Olivetti. 3 ed. Revisada, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2007.

BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. Tradução: Ilson Kayser; Revisão Nélio Schneider. Sandro André: Editora Academia Cristã, 2008.

GENEBRA. Bíblia de Estudo. São Paulo e Barueri, Cultura e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução: Valter Martins. São Paulo, SP: Editora Hagnos, 2001.

SKARSAUNE, Oskar. À Sombra do Templo: As influencias do judaísmo do cristianismo primitivo. São Paulo, Editora Vida, 2004.

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